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Antítese - Capítulo 5
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Nome Antítese - Capítulo 5
Escrito por [[Usuário:MorgaineLeFay|MorgaineLeFay]]
Data de lançamento 27 de junho de 2014
Classificação A leitura não é recomendada para menores de 12 (doze) anos. 12 anos

Cronologia
Temporada 1
Capítulo Anterior Capítulo 4/Parte 2
Próximo Capítulo Capítulo 6
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Propriedade

Antítese - Capítulo 5 é de propriedade de MorgaineLeFay. A menos que a edição seja construtiva ou de poucos detalhes, peça permissão ao autor para editar a página.


Parte 1

Ela era uma adolescente magra e sem muitos atrativos. Usava roupas discretas e seu cabelo estava sempre preso. Talvez esse fosse o motivo pelo qual era tão hostilizada. Seu nome era Gregória Braga, e ela nunca tivera um amigo, praticamente nem tivera família, já que os pais e a irmã idiota não lhe davam atenção. 

Mas não precisava ser assim para sempre. Finalmente, em um dia especialmente ruim, alguém se aproximou dela. Era uma garota como qualquer outra, loira, com belos olhos azuis, mas, mesmo assim, feita de carne e osso. "O que será que ela quer comigo?", Gregória pensou.

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Ela queria conversar. Disse que seu nome era Aline, e que se mudara recentemente para aquela cidade. Além disso, procurava um livro. Com um sorriso, Gregória começou a tirar livros da estante e colocar nos braços da novata.

- Este aqui é Pollyanna, é muito bom, mas talvez você já tenha lido. Aqui está, A Letra Escarlate, perfeito, maravilhoso, ah, olha só, Sonho de uma Noite de Verão! Shakespeare! De todos, é o meu favorito. O Diário de Anne Frank, muito triste... Ah, não, esqueci. É desse aqui que eu gosto - Apanhador no Campo de Centeio!

- Sim, eu já li Pollyanna, minha mãe me diz que eu sou parecida com ela, mas não sou tão ingênua. Apanhador no Campo de Centeio? Nunca ouvi falar...

Então, de uma sinopse emocionada e detalhada do livro, passaram a conversar sobre qualquer coisa - chocolate quente, a cor do tapete, endereços, disciplinas favoritas. A amizade floresceu durante um ano, durante o qual as jovens garotas se tornaram inseparáveis. Até aquela trágica noite.

Um caderno, um inocente caderno. Gregória esquecera um caderno no quarto de Aline, e por isso retornou até lá para buscá-lo, sem avisar. E então, viu aquela traumática cena, da janela.

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Aline, loira, olhos azuis, 16 anos, Aline, sua única amiga, a pessoa que mais importava, Aline, ali, do outro lado da janela, dentro do quarto, fantasiada com roupas muito estranhas, mexendo um líquido gasoso, se é que aquilo existia, em um caldeirão, um caldeirão!!! Há trinta minutos não havia um caldeirão no meio daquele quarto, aliás, nunca houvera, não era possível, por isso ela chorou, chorou desesperadamente, como nunca havia chorado, nem quando matou o próprio gatinho de estimação asfixiado aos dez anos, ou depois de cuspir na sopa do jantar, ou mesmo após mentir que sua irmã havia feito isso e vê-la apanhar impiedosamente da mãe desestruturada.

Depois daquilo, os dias nunca mais foram os mesmos. Já não confiava nem um pouco em Aline, muito menos quando percebeu que ela começara a brilhar e soltar purpurina estranhamente. Estranhamente... sim, ela era uma aberração. E aberrações precisavam morrer. Começou a ler livros sobre bruxaria.

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Leu todo o Malleus Malleficarum', o Martelo das Bruxas, lançado no final da idade média, e que chegou a ser repudiado pela própria Igreja, mas nada daquilo ajudava no caso de Aline. Ela não tinha verrugas e nem um gato preto, não tinha cabelo vermelho, não era casada, e, até onde Gregória sabia, nunca havia dormido com o demônio.

Em outras fontes, descobriu que as bruxas na verdade eram seres mortais, mas matar uma bruxa de verdade era extremamente difícil, uma vez que elas eram extremamente rápidas, espertas, deste modo não podiam ser capturadas, queimadas (nenhuma das mulheres queimadas ou enforcadas por bruxaria era, portanto, bruxa) ou mantidas em campos de concentração, como ela chegou a cogitar. Só havia um jeito: pegar a bruxa de surpresa. Um pensamento apenas apoderava-se da mente de Gregória enquanto ela pegava a arma do pai e se dirigia, no crepúsculo, para a casa de Aline: "Ela precisa morrer".

Então, dia após dia, foi montando seu plano. Precisava de um revólver, e sabia onde encontrar um - seu pai era policial, com certeza guardava a arma no guarda-roupas. Depois, precisava pegar a bruxa de surpresa. Nada de chegar, apontar a arma e fazer um discurso de meia hora - com certeza seria atingida por algum sortilégio. Em vez disso, seria rápido. Abrir a porta, dar um susto leve, apontar a arma, dizer alguma coisa breve e atirar. E não se importava por ser pega da polícia, afinal, a justificativa "Eu a matei porque ela era uma bruxa" iria salvá-la da cadeia... levá-la para um sanatório, certamente, mas salvá-la da cadeia.

E então, finalmente teve sua oportunidade. Os pais de Aline haviam saído de casa, lá estava a mocinha, em seu quarto. Era só questão de empurrar a porta, entrar e fazer o serviço.

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Ela executou as ações bruscamente, sem se importar com o barulho, e disse:

- Olá. Eu sei o que você é. E sei o que merece.

Aline nunca mais viu a luz do sol.

Parte 2

Samanta viu todas as suas esperanças se acabarem. Uma campanha nacional acontecera para que Gabriel Grino fosse encontrado, mas isso só aumentou o número de desaparecimentos, de modo que a campanha acabou tão rápido quanto havia começado. Ela se mudou para outra casa, após passar vinte dias no Castelo da Luz Infinita se recompondo e estudando para lançar escudos protetores no novo lar. Vivia sitiada, como vivera a infância toda, e agora entendia as razões de sua mãe. A barriga que crescia era um lembrete claro: perdera o direito de escolher morrer, já que precisava estar viva para sua filha.

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Fez daquela casa um refúgio, durante sua gravidez. Um lugar alegre onde pudesse pensar em um nome para sua filha. No Livro de Mistério Magicamente Misterioso havia uma lista de várias mulheres que haviam sido mortas por bruxaria, e ela achou justo homenagear aquelas vítimas. Mas haviam muitos nomes semelhantes na lista, por isso ela adotou o que aparecia com mais variações: Ana. De segundo nome, o que achou mais bonito: Sidonia.

Ana Sidonia nasceu sob condições precárias, já que Samanta não teve tempo para chamar uma ambulância ou fazer um feitiço convocatório. Seus poderes ainda estavam no auge, embora ela soubesse que diminuiriam conforme passasse os anos no mundo dos Humanos, como acontecera com sua mãe. Sua filha era uma garotinha rosada e chorona, a quem ela amou imediatamente. Com o tempo, revelou ter os mesmos olhos verdes do pai.

O conselho de Bruxas Anciãs veio visitá-la, como acontecia com todas as filhas de bruxas, e Samanta recebeu boas notícias.

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- É uma criança fantástica, Samanta! Ela tem o dom da inteligência, logo se nota. E um futuro brilhante, acredite em mim - a Avó Anciã, a mais velha do conselho, dizia, animada. Depois, mais séria, acrescentou - cuide muito bem dela, porque esta é a bruxa que irá salvar a nossa raça. Qual é o nome que você escolheu?

- Ana Sidônia, Avó.

- Mantenha-a a salvo e crie-a dentro dos nossos costumes, e então não haverá erro. Curioso, quando você nasceu, previ que você teria uma filha chamada Morgana.

Mas Samanta acrescentou com tristeza:

- Não terei mais filhos, Avó. Não consigo aceitar a ideia de amar outro homem que não seja o Gabriel. E não consigo encontrá-lo, sequer sei se está vivo... e não recebo muita ajuda do Mundo Mágico.

- Você recebe toda a ajuda possível, Samanta. Nunca imaginou que há outros seres além dos humanos interessados em roubar esta criança? Nunca pragueje contra o Palácio da Luz Infinita, ele faz tudo o que pode por nós e pela raça humana, como sempre fez.

- Avó... - ela disse, usando de suas últimas reservas de coragem.

- Sim, criança?

- Onde está a Fábia? - mas as bruxas já haviam desaparecido, deixando-a novamente sozinha, com um bebê para cuidar.

Simone passava muito tempo ali. Samanta sempre a convocava com um feitiço, para que nem ela soubesse o caminho até sua casa, e deste modo talvez estivesse protegida. Depois, com outro feitiço, a devolvia para o lugar de onde a trouxera. Simone adorava a sobrinha, e era uma das fontes de notícias do mundo exterior para Samanta.

Porque no fim, a única companhia que ela tinha, a quem dedicava atenção total, era Ana Sidonia.

No aniversário de oito anos do desaparecimento de Gabriel, Samanta, catatônica, não conseguia dormir. Oito anos sem fazer nada, oito anos apenas esperando por notícias distantes dos progressos lentos de Simone, que já dera refúgio a Plantas-Sims, Zumbis, alguns lobisomens vegetarianos (os carnívoros ficavam no esconderijo de Castida) e alienígenas, mas não conseguia formar um grupo de resistência ou sequer descobrir para onde iam as pessoas capturadas pela União Protetora.

Havia vários anos que ela não via outra bruxa. Começava a se esquecer de como eram os rostos das anciãs, e, principalmente, o de Fábia. Não se podia convocar alguém que não se soubesse onde estava, e ela aprendeu isto sozinha. Mas, naquela noite especialmente triste, ela se levantou e foi até o caldeirão. "Me mostre Fábia Alberta", ela murmurou para ele, como fazia todas as noites. O líquido azul se agitou, pela primeira vez, mostrando imagens desconexas. "Por favor, eu estou implorando", ela disse, desta vez alto, mas não o suficiente para acordar sua filha. Seu maior medo era que Fábia houvesse sido capturada e não quisessem contar para ela.

Mas o caldeirão mostrou estrelas, depois nuvens, como se fosse uma tela de televisão, e, enfim, Fábia, voando sobre o caminho para o Palácio da Luz Infinita.

- Apellus Simae - ela disse, satisfeita.

Nada aconteceu. Foi até a sala de estar, onde podia dizer mais alto.

- Apellus Simae.

E Fábia Alberta se materializou.

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- Samanta! - Fábia disse, primeiro em tom de censura.

- Oi!! Você... ainda não conhece a minha filha!!

- Será que você não entende que...

- Fique tranquila, não vou perguntar onde esteve.

Animada, Samanta guiou Fábia pela escada e pelo corredor até o quarto cor de rosa em que Ana Sidonia dormia satisfeita. Viu um sorriso largo em sua boca, tão largo que se estendia até os olhos.

- É uma menina linda, Samanta. Se parece com você!

- É como se fosse sua neta. E é fantástica, nem parece que tem sete anos.

- Puxou a mãe. Sim, sinto como se fosse minha neta, e você é como uma filha para mim. Ela acordará se eu der um beijinho?

- Não, ela sempre dorme pesado quando se deita desse jeito. Vá em frente!

Fábia deu um beijo delicado na testa da menina. Depois, as duas foram até a cozinha.

- Como você tem passado, Samanta?

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- As coisas iam muito mal no começo. Eu fui até emissoras de televisão, de rádio, procurei jornais, revistas, meu rosto se tornou conhecido, por isso tive que fugir. Vivo fugindo, na verdade vivi assim a vida inteira, sempre escondida... até quando?

- Você ainda pretende encontrá-lo?

- É claro. Eu percorrerei o mundo todo, se for preciso, até que eu possa saber ao menos onde ele está enterrado, e até que eu possa libertar todas as pessoas que eles prenderam. Isso é absurdo, os humanos nem sabem que a razão dos sequestros é torturar as pessoas até saber do paradeiro das criaturas mágicas porque ninguém sequer acredita mais que nós existimos! Se fosse na idade média, tudo bem!

- Penso muito nisso. Estamos conseguindo esconder grande parte dos alvos em potencial da União Protetora, mas isso nem sempre é possível, são muitas pessoas. Existem cerca de trezentas casas como aquela em que você vivia com Simone, casas em que os humanos e criaturas mágicas podem se esconder, mas nem todos querem a nossa ajuda, e elas são frequentemente invadidas, e seus ocupantes, mortos. Sinto-me extremamente cansada, Samanta.

- Por favor, passe essa noite aqui. Eu dormirei no sofá e você pode dormir na minha cama. Preciso desesperadamente de companhia e quero que descanse, será que pelo menos essa noite seria possível?

- Está bem, eu vou ficar. Você está precisando de mim, minha filha.

Samanta, então, inciou uma crise de choro, por isso Fábia limpou os pratos e a levou até o quarto, colocando-a na cama, então apagou a luz.

- Eu preciso... ahn, fique aqui, por favor - Samanta disse.

- Está bem, está bem.

Ela se deitou ao lado da jovem e acariciou seu cabelo até que ela dormisse, aquela garota que viu crescer, e que agora enfrentava uma dor tão grande, uma mulher de 29 anos que naquele momento se permitia voltar uma vez à infância.

Mas Fábia não ficou até a manhã seguinte.

Parte 3

Algumas semanas depois, ela, enfim, teve a boa notícia pela qual esperou durante 8 anos. Logo cedo, recebeu uma ligação de sua irmã, Simone.

- Você vai sair de casa hoje.

- O que está falando, Simone?

- Que hoje você põe os pés pra fora. Faz quantos meses que você não sai de casa, hein?

- Alguns, mas você sabe por que faço isso, e sabe que não tem outro jeito!

- Mas hoje você vai sair, porque é assunto do seu interesse. Eu descobri uma das unidades da - ela sussurrou o nome -União Protetora, e o Gabriel pode ter estado nela, se não estiver.

Samanta arregalou os olhos de surpresa, e falou baixo, para que sua filha não escutasse.

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- Como assim? Depois de 8 anos, finalmente...

- Vou almoçar com você, teremos mais tempo para conversar.

- Eu sempre vou até a escola de Ana Sidonia para buscá-la para almoçar em casa, Simone...

- Pois desta vez ela irá almoçar na escola e nós vamos até a unidade.

- Não é perigoso?

- Se se refere à Ana, não. Você já percebeu que a professora dela brilha? E o zelador? E a moça da merenda? E a diretora? Você já percebeu que muita gente naquela escola brilha? Ela não está menos segura lá do que com você. E caso se refira a nós, não, também não é perigoso, só vamos investigar o local, que, segundo me disseram, é um salão de beleza.

Todas as informações que Simone recebeu eram verdadeiras. De fato, atrás do salão de beleza em que iriam ficava um anexo, e nesse anexo, várias celas, onde seres humanos eram mantidos. O que elas não sabiam é que o último prisioneiro havia sido removido no dia anterior, e ele era Gabriel Grino.

As gêmeas almoçaram e elaboraram alguns detalhes de seu plano.

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Após oito anos que ele mal vira passar, porque só saia de sua cela para a sala de interrogatório, Gabriel tinha o que lhe disseram ser sua "última chance" antes de ir para um lugar pior. Novamente, foi levado de capuz e colocado em uma cadeira, e à sua frente estava o mesmo homem que o interrogava desde o início. Na porta, os dois guardas com suas expressões idiotas. Ele podia derrotar os três sozinho quando chegou lá, mas agora estava magro, fraco, e sabia que não adiantava: mais homens apareceriam, e ele acabaria apanhando desnecessariamente.

- Gabriel, Gabriel... Hoje eu tenho boas notícias para você, rapaz.

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- O que é? Você está com hemorroida?

- Humberto, Josimar, deem nele. - Gabriel mal se assustou com os golpes, estava acostumado. Tinha sorte de não apanhar demais, geralmente aqueles que iam para interrogatório voltavam em carne viva, com membros quebrados ou, após algumas semanas, mortos - Se quer fazer gracinhas, faça gracinhas decentes. E sim, meu rapaz, você é papai. Meus parabéns. Aquela fadinha nojenta com quem você bobba teve uma criança.

"Esses idiotas", Gabriel pensou, "nem sabem que ela não é bruxa...". Isso o amedrontava. A política para filhos, pais ou conhecidos de bruxas era prender e obter informações, mas para as bruxas em si era a morte. E até onde ele sabia, Samanta não era uma bruxa, de modo que corria o risco de morrer sem necessidade. Havia aprendido, entretanto, a esvaziar a mente naqueles interrogatórios.

Era melhor assim, seria como se não tivesse nenhuma informação para passar, e desta forma jamais soltaria a língua. Depois, quando o devolviam para a cela, ele se permitia pensar em Samanta, em Simone, em todas aquelas pessoas machucadas e apavoradas que já dividiram a cela com ele, e então ele podia sofrer em paz. Mas ali, no interrogatório, precisava se mostrar impassível, fizessem o que quisessem com ele.

- Pela última vez, nos diga onde ela está. Ou diga outros nomes, eu só preciso de nomes. E depois liberamos você, acabou a choradeira!

Mas ele sabia que jamais sairia dali com vida a não ser que fugisse.

- Não me importo. Não sei de ninguém.

- É, Gabriel, Gabriel, você é um caso complicado. Uma mania de sobreviver, de ficar quietinho, na sua... Olha, eu não ia te contar, mas nós já pegamos a Samanta. Ela está na sala ali do lado, se você prestar atenção pode até escutar a voz dela.

Não era a primeira vez que lhe diziam aquilo. Depois de um tempo, o homem suspirou.

- É, parece que não vou mesmo poder fazer nada pra você. Você vai ter que conhecer a chefe.

Josimar ainda estava atrás dele. Gabriel sentiu, então, o cheiro de éter, e desmaiou. Acordou à noite, em um cubículo, caído ao lado de um banco.

Cerca de duas horas depois da remoção de Gabriel da unidade até a mansão da "chefe", Samanta e Simone chegaram ao portão do salão de beleza.

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- Preste atenção, Samanta. Eu estou vendo que você está nervosa, e você não pensa bem quando está nervosa. Você não prefere que eu entre sozinha?

- Não, não mesmo. Duas é melhor do que uma.

- Está bem, então calma. A pessoa que esteve aqui me disse que a gente tem que passar a conversa na cabeleireira. Ela fica o tempo todo vendo Tevê. Vamos dizer que queremos ir ao banheiro. Ele disse que perto da porta do banheiro existe outra porta, que vai estar trancada. Eu suponho que você tem um feitiço para isso.

- Sim, eu tenho.

- Vamos abrir três portas trancadas e chegar até o pavilhão das celas, algo assim. Aí é só procurar.

- Vou sair dali com as pessoas que encontrar pelo Magivestigum. E, tomara, uma delas será o Gabriel.

- Então vamos entrar.

O salão era uma sala nua, claramente menor do que a casa. Uma mulher de meia idade permanecia deitada em um sofá atrás do caixa, entediada, assistindo as imagens de uma televisão de parede do mesmo lado da porta.

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- Olá - Simone cumprimentou. O salão está funcionando?

- Sim - a cabeleireira disse, de má vontade - ele está. De que as senhoras gostariam?

- Estou precisando tirar as pontas - Simone respondeu - elas me atrapalham a enxergar. E minha irmã gostaria de fazer uma selagem, progressiva, ou algo assim.

- Olhe, não posso cortar as pontas agora, tenho uma cliente chegando. E não mexo com química, porque tenho alergia.

Essa parte saíra de acordo com o plano.

- Então será que podemos usar o banheiro?

- Tá, é aquela porta ali.

Elas entraram pela porta.

Em seguida, os dois homens presentes no interrogatório de Gabriel entraram no salão. Simone, esperando que Samanta abrisse a porta para o corredor, ouviu o que conversavam.

- Humberto, seu incompetente! Já lhe disse um milhão de vezes para trancar o portão, você não tranca e essas peruas sempre acham que o salão está aberto! Lembra do que aconteceu da última vez que eu coloquei as mãos em um cabelo? Claro que não, não se lembra de nada. Nem sei por que é que me casei com você!

- Pare com isso, Amaralina, já estou cansado de você jogando essas coisas na minha cara! Eu fecho a bobba do portão!

O som de passos e uma porta batendo.

- Calma, gata - o som da outra voz masculina - não trata ele assim não. Ninguém é perfeito, tenha paciência.

- Josimar, Josimar... por que eu me casei com o seu irmão? Sente aqui, estou com saudades de você.

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Som de beijos, alguns gemidos.

- Meu Deus, Samanta! Ela trai o marido com o irmão dele! Abra logo essa porta, estou doida para sair daqui.

As duas subiram algumas escadas e encontraram o pavilhão. "Apellus Simae", Samanta dizia, mas Gabriel não estava em parte alguma, e o feitiço funcionava muito mal para humanos.

Explorando-o, depararam-se com as celas, onde algumas camas de campanha baratas mal cabiam. Estavam quase todas mofadas. Simone encontrou a sala de interrogatório, onde não havia nenhum documento. Nenhum recado escrito na parede, nenhum objeto, nenhum sinal.

Elas ouviram passos, mas Samanta usou o Magivestigum para tirá-las dali. Apareceram no banheiro, e dali foram embora. Estava inconsolável, por isso Simone teve que passar a tarde em sua casa para acalmá-la e cuidar da sobrinha em seu lugar.

Na semana seguinte, porém, tiveram outra notícia boa. Samanta recebeu uma ligação de Simone, que dizia ter encontrado o exato local em que Gabriel Grino estava. Ela se despediu de sua filha, sabendo que duas bruxas a vigiariam, o que, na verdade, não a acalmava, e entrou em um carro com Simone.

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Parte 4

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Ele nunca soube ao certo quanto tempo ficou naquela sala. De dois em três dias, uma portinhola era aberta e alguém colocava ali uma garrafa de água, um prato de comida quente e um saco de qualquer coisa - salgadinhos, biscoitos, balas - além de empurrar para dentro um balde onde ele fazia as necessidades. A pessoa esperava que ele devolvesse o balde usado. Ele tentou colocar uma mão para fora, uma vez, e só não a teve cortada porque foi rápido. Depois de algum tempo, já não conseguia mais contar os dias, pois pensou que estava enlouquecendo.

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Sonhava bastante, alguns sonhos incrivelmente reais, como aquele em que chegava em casa do trabalho, e Samanta o esperava com o jantar pronto, ele recebia um beijo e um abraço de uma garotinha tão parecida com a mãe que lhe contava sobre o dia que tivera. Em outros, ele via uma casa de paredes azuis, em que Samanta, amargurada, tentava obter notícias suas, ou cuidava da mesma garotinha do outro sonho. "Mesmo que eu tenha que passar por isso para protegê-las, meu Deus, eu passo de bom grado", ele repetia para si mesmo, e, com isso, aliviava o próprio sofrimento.

Gregória Braga nunca foi acusada do crime de matar Aline. Nunca sequer cogitaram que ela estivesse na casa, de qualquer forma, o que ela considerou uma incrível sorte. Os pais de Aline se separam, a mãe enlouqueceu e morreu em uma clínica de repouso, o pai bebeu até a morte depois. O assassinato nunca foi esclarecido. Ela cresceu, malhou, trabalhou, sobretudo. Trabalhou bastante. Ficou rica. Comprou a casa em que Aline residira, demoliu-a toda, deixando apenas o quarto em que fez sua primeira vítima. Gabriel Grino estava naquele quarto.

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A noite em que Samanta e Simone não apenas descobriram, como também foram, até seu endereço, foi a mesma em que ela decidiu interrogar seu prisioneiro pela primeira vez. Os prisioneiros anteriores haviam revelado algo sobre o poder da bruxa aumentar a cada geração e ser transferido para a primeira filha, por isso ela torturou até a morte a bruxa mais poderosa de sua época, Bárbara Cordial, à espera de que esta lhe revelasse o paradeiro de suas duas filhas. Bárbara, entretanto, já não tinha mais poderes, enfraquecera-se durante os anos vivendo no mundo humano, e por isso não resistiu, mas jamais revelou onde estavam as gêmeas.

Ela então conheceu um jovem chamado Gabriel, que assistia, feliz, o nascer do sol na praia da cidade, após ter passado a noite com a mulher que amava. Gregória sabia quem ele era e onde morava, não a localização, mas as características da moradia. Manteve-o preso. Já nos primeiros meses soube que não conseguiriam extrair dele nenhuma informação, mas cuidou para que ele tivesse tratamento melhor do que os outros prisioneiros para que ficasse vivo até que sua namorada em pessoa viesse buscá-lo, o que não aconteceu. Precisou levá-lo para sua cadeia particular.

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- Gabriel! Gabriel, você está me ouvindo? - Samanta deu suaves pancadinhas na parede. Simone agarrou sua mão.

- Quieta! Você sabe quem é que vai te ouvir se fizer isso, né?

- Me desculpe! Vamos ter que entrar, não consigo trazê-lo aqui para fora.

- Vou ver como funciona essa porta.

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Ela se esgueirou até o lado do cômodo, e viu Gregória saindo.

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- Samanta! Venha até aqui, você precisa... Está trancada! Ai, meu Deus, ela está voltando! - escondeu-se novamente. Gregória voltou com os dois homens que estavam no salão de beleza, deixando-os vigiando a porta.

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- Gabriel! Olá, meu nome é... Ah, tolinho, eu nunca lhe diria o meu nome, não é mesmo? - Gregória se sentia bem humorada - Meus parabéns, me parece que, de fato, você é papai! É, pois é, uma menina linda, é uma pena que tenha morrido tão jovem. O que é, você achou que não faríamos isso? Pode falar, eu sei que você achou. Fizemos. Matamos a sua filha. Matamos a sua mulher, a sua querida Samanta. Matamos a irmã dela. Ah, Castida, Castida Gerão, acho que ela não significa mais nada para você, mas... morreu também. Você está sozinho, Gabriel. Não precisa mais ficar escondendo. Só quero saber se você sabia... Você sabia, não sabia? Onde elas estavam escondidas, quem as escondia, pode me dizer, vai...

- Não sei de quem você está falando.

- Ah, então vou te dizer como matamos sua querida Samanta. Nós -- O QUE É ISSO?

Uma risada esganiçada, fina e sobrenatural vinha de dentro da casa.

- O QUE É ISSO? NA... NA MINHA CASA, NÃO É POSSÍVEL! - Gregória estava claramente desconcertada.

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- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAAAAAAAAAA! HAAAAAAAAHAAAAAAAAAAAAHAAAAAAAAAAAHAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!! - Frances Matilda, a bruxa infalivelmente má, nunca gargalhara com menos vontade antes.

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- Vocês, fiquem aqui - Gregória disse - eu vou lá dentro ver o que está acontecendo.

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- HAAAAAAAAAHAAAAAAAAAHAAAAAHAAAHAAAAHAAAAHAAAHAAAHAA Oii!!

Ela teria desmaiado se ainda tivesse 16 anos. Uma repugnante criatura de pele verde ria, a boca escancarada, aquelas rugas, aquela roupa negra, aquilo era o pior espécime que ela já vira. Uma bruxa, e verde, e rindo.

- COMO VOCÊ ENTROU AQUI?

- Não sei por que ninguém entrou antesssssss!!!!!!!

- ACABOU, Gregória!

Ali estava Simone Cordial, pela primeira vez segurando uma arma e rezando para saber atirar.

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- Ai, meu Deus! Está todo mundo entrando aqui agora?? Você, de onde você saiu? Você não brilha e não é verde, será que...

- Está com medo de morrer como tem matado algumas pessoas? Você tem medo de morrer? - Simone quase debochava.

- Largue essa arma, menina! Você nem sabe o que está fazendo! E vai precisar matar ao menos quinze pessoas se quiser acabar com isso...

- Eu vou atirar!

- Então atire logo, você não tem coragem!! - Disse Gregória, apavorada.

- Pode apostar que tenho!

- Pare de blefar - uma voz masculina veio detrás de Simone, uma voz que ela conhecia. Largou a arma por impulso um pouco antes de receber um abraço de urso.

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Atraídos pelo barulho, os dois homens haviam abandonado seus postos e ido proteger Gregória. Enquanto isso, Samanta conseguiu se lembrar de um feitiço para portas automáticas, e, quando teve o caminho livre, engoliu seco e preparou-se para ver, após oito anos, o pai de sua filha.

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- Gabriel! - ela disse, a voz trêmula por causa do choro.

- Samanta!? - ele se sentia feliz, mas após passar oito anos calado para protegê-la, não queria estragar tudo - Você precisa sair daqui!

- Eu vou levar você! Eu tenho um feitiço! Vamos sair daqui os dois!

- Feitiço? Então você se tornou uma bruxa?

Ela já não estava mais suportando a distância, e interrompeu as indagações de Gabriel com um beijo.

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- Agora eu é que vou rir!!! - uma voz potente e debochada saiu da direção da porta

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- PEGUEI OS DOIS! - Gregória Braga gritou, satisfeita, pois havia quase trinta anos que ela esperava por aquilo.


Josimar e Humberto não eram homens muito espertos. Na ânsia de seguir a todo custo sua líder, esqueciam-se de coisas simples, como da presença de Simone e de Frances Matilda. Desse modo, acabaram por seguir Gregória até o quarto dos interrogatórios, onde ela surpreendera Samanta e Gabriel, e, enquanto isso, Frances se esgueirou até o próprio quarto de Gregória, seguida por uma assustada Simone.

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- Pelo amor de Deus, Frances, o que é que você está fazendo?

- Ora, Simonezinha, eu gosto de você, mas não me atrapalhe agora.

- Frances... Frances! Largue essa garrafa de álcool! L... largue esse isqueiro! NÃO SE APROXIME DESSA LAREIRA!

- Já está feito, Simonezinha, já está feito. Segure no meu ombro, por favor - Hesitante, Simone concordou. Depois, arrependeu-se: em questão de centésimos de segundo, Fábia acendeu o isqueiro e jogou-o na lareira, depois pronunciou o encantamento "Magivestigum" e as duas saíram dali um pouco antes de as chamas tomarem conta do quarto.

Depois, tomaram conta da casa toda. Gregória tentou salvar seus pertences, mas morreu em meio às chamas, e não haviam notícias de Samanta.

Simone só soube disso três dias depois, quando acordou, em casa, após um encantamento para dormir, com a visita de Fábia Alberta.

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Fim da primeira temporada.

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